(...”O meu
coração é só de Jesus,
a minha alegria é a Santa Cruz”...).
A cesta confeccionada em bambú, de formato
comprido, grande, sustentada pelos braços dobrados
na altura dos cotovelos, transportava verduras e legumes,
consignados de hortas domésticas que ele vendia
à população.
As vestes, quase sempre em frangalhos, combinavam
pobremente com calçados desprovidos dos solados
necessários para as caminhadas diárias.
Estes trajes sofriam alterações quando
ocorria algum falecimento na cidade, no lugar deles
surgia um velho paletó, já sem o colorido
original, calças um pouco melhores que as de
sempre, um longo trapo tentava imitar uma gravata
amarrada ao pescoço, os sapatos eram os mesmos,
um pouco mais limpos talvez.
Todo e qualquer velório merecia esta atenção,
e ele não se fazia ausente à nenhum
, desde que tomasse conhecimento do mesmo; na verdade
sabia de todos, como se contasse com uma poderosa
e especializada rede de informações
funestas.
Conta-se, que um dia, após a notícia
de que havia morrido uma pessoa muito conhecida na
cidade, o nosso personagem, após envergar o
traje próprio para tais ocasiões, dirigiu-se
ao local do velório, como sempre fazia , afim
de pernoitar alí até o amanhecer.
Os
procedimentos seguiam normais até a madrugada,
com pessoas choramingando, outras se empenhando em
distribuir os cafézinhos e biscoitos aos presentes
, e ele procurando aos que serviam as “cachacinhas”
nos cômodos periféricos à sala
principal, onde jazia o corpo dentro da urna, coberto
de flores.
Lá pelas tantas, de repente, eis que o “defunto”
suspira, se levanta assentando-se no caixão,
um ramo de flores pendendo agarrado em uma de suas
orelhas, um chumaço de algodão fechando-lhe
uma das narinas e o olhar estupefato, intrigado, sem
entender nada do que estava acontecendo girando atordoado
pelo ambiente... (descobriu-se no dia seguinte que
o “ex-defunto” sofria de um mal, que nas
crises, provocava aquela reação, com
todos os sintomas aparentes de uma morte verdadeira,
embora passageiros).
Uma
descontrolada balbúrdia e caos se instalaram,
com gritos, correrias, castiçais ao chão,
velas pisoteadas, e o nosso piedoso “arauto”
lançado pela janela , estatelando-se em cima
do jardim em frente à casa, bem no meio de
um canteiro de plantas popularmente chamadas de “Coroas
de Cristo”, cujas folhas vermelhas decorativas
têm como companhia centenas de espinhos, longos
e ponteagudos, providos de seiva esbranquiçada,
tóxica e altamente urticante, que provocam
sérias lesões ao ferir alguém,
o que o levou a ser internado para os devidos cuidados
médicos, durante um longo período.
Tempos
depois o cidadão “ex-defunto” faleceu
de verdade, morte comprovada pelos médicos,
já experimentados com os acontecimentos passados.
Alguém, vendo o “verdureiro papa-defuntos”,
tranquilamente trabalhando nas ruas, e sem os trajes
especiais para aqueles eventos, curiosamente perguntou-o
se ele não iria participar do velório.
A resposta dele, firme e decidida deixou tudo muito
bem explicadinho:
-
“Da última vez que esse homem morreu,
eu fui jogado pela janela, ao cair gritei meu ‘Jesus
Cristo’, e ‘Ele’, prá me
ajudar, forrou o chão com suas coroas... me
lasquei todo;
Enterro desse “defunto mentiroso”... nunca
mais, cruz credo!!!
Saudações
Violeiras um grande abraço a todos e até
a próxima, Carlos Augusto.
Carlos Augusto de Oliveira
teekarllos@yahoo.com.br
Contagem - Minas Gerais